domingo, 7 de setembro de 2014

O FIM DA PRIMEIRA GUERRA - OU O ENSAIO DA SEGUNDA



Durante a maior parte dos mais de quatro anos em que o planeta se viu engolfado na mais cáustica batalha de sua história, a Alemanha esteve sempre um passo adiante de seus oponentes. Não foram poucas as vezes que o alto comando germânico, com absoluta propriedade, pensou estar próximo de celebrar o triunfo definitivo contra a aliança de seus férreos antagonistas. Parecia que Grã-Bretanha, França e Rússia, mesmo abraçadas, seriam incapazes de conter o inigualável ímpeto ofensivo tedesco. Nem sequer o anúncio da entrada dos Estados Unidos nas hostilidades refreou os ânimos dos oficiais alemães, confiantes no magnífico poderio de sua máquina de guerra. Sem dúvida, a Alemanha ofereceu inúmeras demonstrações de seu estarrecedor colosso militar. E, mesmo rodeada por aliados que se revelariam pouco resilientes, ao final das contas, quase garantiu a vitória. Quase.

No último dia 11 de novembro, consolidou-se a arrebatadora virada aliada verificada nos últimos meses no teatro de operações da Grande Guerra. Com a assinatura do armistício entre as delegações beligerantes, chegam ao fim as hostilidades que consumiram pouco mais de 4 anos e três meses do planeta. Quase 10 milhões de vidas foram perdidas na carnificina mundial. Mais de 20 milhões de militares foram feridos. Em estimativa que certamente será afinada em breve, foram gastos mais de 249 bilhões de dólares na batalha. Exaurida, a Alemanha não teve outra opção senão capitular, sob termos que imputam inassimilável revés a Berlim. Afinal, quando maior a altura, maior o tombo.
Falsa esperança – No início deste ano, uma derrota germânica parecia fora de questão. A retirada da Rússia dos combates possibilitou ao comandante Erich Ludendorff deslocar tropas da frente Oriental para a Ocidental e planejar com perícia a irresistível ofensiva que levaria a Alemanha à vitória, antes mesmo da chegada dos americanos. Paris jamais havia sido um objetivo tão real. Mas as três principais ofensivas alemãs do primeiro semestre – Michael, Georgette e Blücher-Yorck – repetiram um padrão que trazia prenúncios sombrios para Ludendorff. Inícios arrasadores, como no episódio da virtual destruição do Quinto Exército britânico em apenas três dias, na ofensiva Michael, eram seguidos pela falta de punch no momento de conquistar os objetivos da operação. Nas três vezes, os alemães foram repelidos e encerraram, frustrados, as ofensivas. A exaustão chegava à Alemanha.
Três anos e meio de batalhas levam a isso, como bem sabiam as igualmente depauperadas Grã-Bretanha e França. Estas, contudo, ainda tinham a retaguarda do apoio material americano. Mais importante, as duas potências aliadas europeias também sabiam que suas perdas humanas, em que pese terríveis, seriam supridas com a chegada de milhões de soldados dos Estados Unidos, já em plena travessia do Atlântico. Os germânicos, portanto, tinham pressa – mas já não podiam vencer seu próprio esgotamento, quanto mais competir com um novo e robusto oponente. As duas últimas ofensivas tedescas, Gneisenau e Marne-Reims, em junho e julho, foram uma pálida lembrança do poderio do orgulhoso e brioso exército de Berlim. Bebedeiras, deserções e saques disseminados indicavam que a balança começava a pender para o outro lado.
Nação ferida – Diante dos inequívocos indícios de fadiga da Alemanha, o supremo comando aliado, sob a firme liderança do marechal francês Ferdinand Foch, preparou uma série de contra-ofensivas. Cada uma delas teve objetivos claros, limitados e específicos, visando recuperar territórios conquistados pelo oponente nos primeiros meses desde 1918. Levadas a cabo entre julho e setembro, foram executadas com maestria, sempre com rigor estratégico, exemplar disciplina e superioridade numérica, e impuseram aos tedescos não apenas derrotas militares como também uma pressão insuportável. No Marne, em Amiens, em Bapaume, em Saint Mihiel – no qual o recém-ativado Primeiro Exército dos Estados Unidos entrou em ação – ou em Argonne, a demonstração de superioridade dos aliados era inconteste, vencendo focos de resistências de setores ainda valentes do exército germânico.
No final de setembro, o colapso definitivamente se avizinhou da Alemanha. A Linha Hindenburg – o sistema de fortificações alemãs na França – foi rompida entre Cambrai e Saint Quentin; a derrota na Quarta Batalha de Ypres ameaçou as posições germânicas na costa da Bélgica. Novas ofensivas aliadas em outubro e uma situação política interna explosiva colocaram a Alemanha contra a parede; ciente da irreversibilidade dos fatos, a nação ferida começou a negociar um armistício.
Ao mesmo tempo, longe da Frente Ocidental, seus aliados começavam a desmoronar, abandonando o barco em acordos individuais com os gigantes ocidentais. A Bulgária, derradeiro país das Potências Centrais a entrar nas hostilidades, foi a primeira a deixá-las, em acordo datado de 29 de setembro. A Turquia, há muito incapaz de suportar o consumo voraz de recursos exigidos pela guerra de longa duração – com mais de 1,5 milhões de baixas, seu exército era um sexto da força inicial –, abandonou o conflito em 30 de outubro de 1918. O império Austro-Húngaro também sofria com a fome, agitações políticas e com insurreições nacionalistas, e baixou as armas em 3 de novembro.
Catorze pontos – As tratativas entre a Alemanha e os aliados por um armistício haviam sido abertas em 4 de outubro, com o governo germânico dispostos a negociar com base nos catorze pontos de Woodrow Wilson. O documento que o presidente americano apresentara ao Congresso como base para uma paz duradoura elencava elementos como o princípio da autodeterminação nacional, a restauração do estado belga, o restabelecimento de todo o território francês, o fim dos impérios Austro-Húngaro e Otomano, a abertura de negociações diplomáticas, o fim das barreiras econômicas e garantias recíprocas de independência política e territorial para todos os estados. Obviamente, esses três últimos itens eram especialmente caros aos alemães. França e Grã-Bretanha, porém, não subscreviam todos os pontos do pacto. Londres era radicalmente contra ao fim dos bloqueios, enquanto Paris, sedenta de sangue, desejava impor punições radicais ao inimigo vencido e exigir dele reparações pesadas.
Hábil, Wilson aceitou as objeções dos aliados, mas ao mesmo tempo ameaçou negociar uma paz em separado com os alemães caso os parceiros ocidentais fizessem novas contestações. Os primeiros-ministros David Lloyd George e George Clemenceau não se opuseram mais – ainda que este último, especialmente, tenha ficado descontente com os termos –, e a minuta, oficialmente chancelada pelo Supremo Conselho de Guerra, foi enviada à Alemanha em 5 de novembro. Como condição para a assinatura do armistício, Woodrow Wilson exigiu a abdicação do Kaiser Guilherme II. A insistência causou desconforto no governo alemão, mas foi resolvida pelo chanceler germânico, príncipe Max von Baden, que anunciou em público, no dia 9 de novembro, a abdicação do Kaiser – ainda que este não tivesse consentido com o fato (apenas no dia 28 Guilherme II proclamou oficialmente sua abdicação).
Derrota total – Com todas – ou quase todas – as arestas aparadas, o encontro entre a delegação aliada, comandada pelo marechal Foch e pelo almirante inglês Rosslyn Wemyss, e a alemã, conduzida por Matthias Erzberger, aconteceu em no vagão de trem de Foch, na floresta de Compiègne, no Norte da França, às 2h05 da madrugada do dia 11 de novembro. Os termos do acordo foram severos para a Alemanha, especialmente no que diz respeito a seu desarmamento como forma de prevenir novas hostilidades. Mas não havia margem de negociação para a delegação germânica, que também concordaram em recolher, em um prazo de duas semanas, todos os seus soldados espalhados pela Europa Ocidental e recuar suas tropas dentro da Alemanha a até 40 quilômetros a leste do Rio Reno. Outras resoluções de efeito imediato: a evacuação dos territórios ocupados na Europa Oriental – anulando assim os acordos assinados com Rússia (Brest-Litovsky) e Romênia (Bucareste) – e o fim dos combates na África Oriental.
Todo o material militar tedesco será entregue aos aliados – 5.000 peças de artilharia, 30.000 metralhadoras, 2.000 aviões, 5.000 locomotivas, 150.000 vagões, 5.000 caminhões e a totalidade de sua frota de submarinos (no dia 27 de novembro, 114 U-boats chegaram ao porto de Harwich, na Inglaterra). O restante da frota naval e aérea precisa ser reunida e imobilizada com urgência. Previsivelmente, a Alemanha fica ainda obrigada a libertar todos os prisioneiros de guerra. Em resumo: derrota total e implacável aos alemães.
Assinado depois de três horas de tratativas, às 5h10, o armistício entrou oficialmente em vigor às 11 horas – a décima primeira hora do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês de 1918. A notícia foi recebida com gosto agridoce pelos exércitos e populações de todos os países envolvidos nas hostilidades. Em meio aos estampidos que se fizeram ouvir por toda a cidade de Londres, ainda na manhã de 11 de novembro, homens e mulheres olhavam incrédulos uns para os outros, sem conseguir desfrutar do júbilo da vitória. “Eles apenas diziam: a guerra acabou”, testemunhou a enfermeira voluntária Vera Brittain. Vencedores e vencidos unem-se agora em um sentimento de alívio: depois dos 1.567 dias mais longos da história do planeta, chegou a hora de recomeçar

domingo, 10 de agosto de 2014

O QUE FOI O AI-5

O  que foi.
Ato Institucional AI 5.
Medida jurídica de exceção.
Contra o Estado de Direito.
Com a finalidade de preservar.
O Regime Militar.
Evitar a redemocratização da nação.
Portanto, um ato de natureza fascista.

Estabelecido por um regime de exceção.
De caráter autoritário.
Editado em dezembro 1968.
Vigorando durante o período.
Da ditadura militar.
Objetivo do ato.
Exterminar com as liberdades individuais.
Estabelecendo definitivamente.
O poder político dos militares.
Com o pretexto.
Como se o Brasil estivesse.
Na eminência de uma revolução.
Marxista.
Uma das loucuras da direita brasileira.

Contra as classes populares.
Como se o povo estivesse.
Articulado.
Em defesa do socialismo.
Pro Soviético.
O  Brasil pudesse alinhar.
Ao governo de Moscou.
Defendendo as ideias da KGB.
Contra as orientações do pentágono americano. 
AI 5.
Foi um dos delírios fascistas do Regime Militar.
No Brasil.
Em defesa da Filosofia política.
O neoliberalismo econômico.
O ato Institucional AI 5.
Contrariamente aos demais atos.
Que antecederam.
Pois legalmente.
Não tinha determinação de vigência.
O que tratava não significar.
Como medida excepcional de transição.

É a leia mais fascista.
Da história do Brasil.
Desde a sua colonização.
Coroa e republica.
O ato AI 5.
Conferia poderes excepcionais.
Semelhantes ao do Regime Nazista.
Na Alemanha de Hitler.
Nem mesmo os reis.
Das monarquias nacionais.
Na Europa.
Tinham tanto poderes.
Semelhante ao fascismo italiano.
O Presidente da Republica.
Era superior a todas as Instituições.
O Estado era o militarismo.
A nação os generais.
A burguesia o comandante geral.
Do reacionarismo econômico e político.


O ato dava autoridade ao Presidente da República.
Fechar o congresso.
Do modo que ele bem entendesse.
Cassar os mandatos.
Sobretudo, das esquerdas do Brasil.
Ou dos partidos.
Que lutavam para redemocratização.

O ato AI 5.
Dava direito ao Presidente.
Suspender todos os direitos políticos.
Do cidadão brasileiro.
Demitir ou aposentar.
Os servidores públicos.
Que fossem contrários.
Ao Regime Fascista do Brasil.

O Ato AI5.
Era tão de direita e nazista.
Que suspendia a garantia constitucional.
Da ampla defesa do acusado.
Negava a presunção da inocência.
Retirando do cidadão brasileiro.
O direito da habeas corpus.
Nem mesmo a Inquisição medieval.
Fora tão ditatorial.
Pois as pessoas só eram condenadas.
Após a realização de suas defesas.
Motivo pelo qual.
Não é nenhum exagero.
Comparar o ato AI5.
Com Regime de Exceção de Hitler.

O cidadão brasileiro.
Não tinha nenhum direito.
Quando era enquadrado.
Em crimes contra a ideologia de segurança nacional.
Ou inflações  contra ordem econômica social.
Como também  a defesa da suposta.
Economia popular.
O golpe militar.
 Foi uma exigência da burguesia brasileira.
Que na história política do Brasil.
Tem feito de tudo.
Para evitar transformações.
Econômicas em benefício das classes pobres.
Essa burguesia.
Historicamente.
Derrubou Getulio Vargas.
Levando ao próprio suicídio.
 Não porque Getulio fora ditador.
Mas devido ter realizado.
Medidas sociais.
Em benefício dos trabalhadores.

A mesma burguesia.
 Criou uma convulsão nacional.
Até a derrubada.
Do governo João Goulart.
Não pelo fato de João Goulart.
Ter sido socialista.
Pois nunca fora.
Mas em razão.
Das realizações populares.
Em benefícios dos trabalhadores.
O motivo do financiamento da ditadura militar.
A derrubada do governo democrático.
Anterior.

A burguesia sempre esteve disposta.
A tudo.
Ela mesma cria situações.
Para jogar a sociedade.
Que é despolitizada.
Contra os governos sociais.
Tem sido desse modo historicamente.
No Brasil.
E não acredito que será muito diferente.
Às vezes o fascismo se repete no mundo.
Caracterizando como regimes democráticos.
Refiro ao governo italiano.
Mais recentemente.
Para não dizer outras formas de governo.
Espalhados pelo mundo.
É fundamental que a sociedade seja crítica.
Politicamente.
Atenta inclusive com a história política do Brasil.
Quais são os verdadeiros motivos.
Das ações políticas no Brasil.

É muito tarde para prevalecer o espírito ingênuo.

sábado, 19 de abril de 2014

ÍNDIOS NO BRASIL COLONIAL E SUAS POLÍTICAS

Com o “descobrimento” do território brasileiro, Portugal utiliza basicamente as mesmas políticas de colonização e exploração usadas na África e Ásia. Que na realidade seus projetos com essa terra recém “descoberta” era de explorar os recursos e abastecer o mercado europeu, pois muitos dos produtos encontrados aqui já se encontravam em escassez no velho continente. Porém isso não aconteceu de forma pacifica, pois o território já encontrava se habitado.
Para que a Coroa portuguesa conseguisse explorar os recursos, houve políticas para “desapropriação” dos índios, aonde o europeu se colocou superior aos povos americanos. Com isto houve inúmeras manobras entre elas, mandou para o Brasil muitos de seus gestores que já trabalhavam em outras partes do mundo estes sempre ligados aos interesses da burguesia mercantil.
Com o interesse português declarado sobre o Brasil, Portugal além de defender estas terras, se julgou responsável por civilizar os índios, (a história nos mostra o que acontece quando um povo se coloca superior ao outro, fazendo destes povos seus próprios súditos). Como foi ensinado a nos as terras “descobertas” seriam dividias de acordo com o tratado de Tordesilhas, firmando entre Portugal e Espanha com a intermediação do Para. Porém houve outros acordos para dar a veracidades das terras “descobertas” e seus respectivos “donos”. E desde o inicio o processo de colonização no Brasil foi marcado pela crueldade usada parte dos portugueses.
A opinião publica da Europa pouco fez a respeito da forma que os índios foram tratados, pois estavam alienados pelos discursos da Igreja e da Coroa. Já que os indígenas eram vistos como selvagens, “almas perdidas”, desta forma eles se auto julgaram os responsáveis por levar os índios a “Deus”, os purificando de todos os pecados.
O grande número de armas usadas pelos portugueses é justificado por ser fundamental na catequização indígenas, usurpando disto para práticas guerra e massacre contra os índios. Praticas essas muito comuns durante todo o período colonial, não só no Brasil, mas em toda a América do Sul. Ouve muita resistência por parte dos índios, mas não foram este os únicos motivos do grande número de mortes indígenas, pois as doenças vindas da Europa foram letais para os índios, uma vez que os corpos dos índios não detinham de anticorpos de doenças simples como a gripe.
Fato é que em geral, os povos indígenas nunca concordaram com a forma que eram tratados, os índios sempre viveram em “liberdade”, e após a chegada dos europeus, se viram obrigados a obedecer as hierarquias da Coroa, a religiosidades o trabalho forçado, estes elementos não fazem parte da cultura indígena. Mas os europeus quiseram impor a cultura ocidental. Por isto que eu não concordo com o termo “choque-cultural”, pois acredito que isto na realidade não aconteceu, o que realmente aconteceu foi à imposição de uma cultura sobre a outra. Para que isto acontecesse Portugal usou da força, matando e escravizando milhares de índios que não concordaram com as praticas. Hipotético pensar que a Coroa portuguesa era responsável de professar a fé cristã e ser conviveste a muitos absurdos, não da para olhar para os fatos e não condenar as atitudes dos europeus e da Igreja.
Na grande parte os responsáveis em cuidar dos interesses da Coroa eram pessoas religiosas aptas a obedecer à doutrina em vigor. Tanto que ainda no período colonial foi criada uma lei que defendia os indígenas, porém a Coroa portuguesa entendia que a força era indispensável para se impor, desta forma suas medidas eram sempre em desfavor aos índios.
Que diversas leis e recomendações a respeito dos índios as longo dos 300 anos de colonização, mas em forma geral estas leis, todavia deram privilégios a Coroa, ou aos seus representantes, os índios sempre ficaram a mercê. Cabe colocar aqui que as Cartas Régias e alvarás dados aos governantes, eram feitos sobre o consentimento de explorar o máximo de recursos do Brasil, e que as leis demoravam cerca de seis meses para chegar ao Brasil, então muitas das vezes já estavam defasadas ou o governo local já havia resolvido o problema.
Outro fato importante é que a Coroa e a Igreja sempre estava juntas, salve alguns momentos em que os interesses eram diferentes. Mas de modo geral os dois sempre estavam juntos, tanto que o território era considerado português, e o responsável em levar a catequese aos índios era as “missões” da Igreja. Só esclarecendo que a força, as penas e a escravidão eram feitas sobre ordem ou consentimento de Portugal e que a Igreja sempre foi omissa. Os jesuítas tiveram um papel importante na defesa dos índios, pois entendo que eles realmente estavam a serviço do “bem”, e muitos jesuítas vieram para o Brasil com o ideal de cria um novo povo, uma nação pura, longe de todas as maldades existentes na Europa, tirando este tipo de exceção a Igreja e Coroa, estão unidas tanto que foi feito um pacto entes as duas partes chamado de Padroado, local onde as duas ordens eram regidas de uma única forma, e os índios viam a Igreja e o Estado, em uma só instituição tanto que eles vinham às duas partes muitas vezes agir de maneira igual.
Vale ressaltar que a Coroa portuguesa não viveu o tempo todo em harmonia com a Igreja tanto que somente após 1755, a Igreja não podia mais intervim nas aldeias indígenas, momento que combinou com a expulsão dos jesuítas, por exemplo. Vejo que isto foi mais uma manobra da Coroa para a dizimação indígena, pois havia boas práticas em defesa dos índios feitas pelos jesuítas. E convenha neste momento a Igreja já não era tão influente na política com no inicio da colonização.
Na prática, os índios foi um alvo de disputas entes português e os religiosos, os dois sempre discutiam a melhor forma de civilizar os índios, os religiosos defendiam o trabalho comunitário, feito em conjunto de todos os índios, já os português queriam eles para trabalhar nas fazendas, órgãos públicos, engenhos e tantas outras formas de trabalhos. Não houve um projeto real visando os índios, os projetos sempre esbarraram nos interesses de particulares. Irônico que queriam civilizar e torná-los cristãs, mas nunca foi perguntado se o índio queria isto para ele, na verdade até hoje isto não é levado em conta.
Outros interessados nos índios eram os colonos que viam os índios como uma mão de obra escrava e necessária, também para fazer a segurança e entre outros serviços. Apesar de responsabilidade de Coroa promover a paz, mas quando os índios eram visto como uma alternativa para este serviço, a coroa tentava se posicionar de maneira mais neutra possível, talvez por esta atitude da Coroa, houve tantas divergências entre colonos e ordens religiosas principalmente os jesuítas. E por pressão dos colonos é que os jesuítas foram expulsões de varias regiões, desta forma os colonos puderam escraviza e vender os índios tranquilamente.
Enfim a expulsão das ordens religiosas, e as leis para modernizar o território brasileiro, resultaram da seguinte forma:
 A transformação das aldeias indígenas em vilas e lugares, e a promoção da miscigenação física e cultural dos índios fazem parte tanto de uma política de modernização do Estado português e da definição do índio como nação ou etnia especifica. A entrada da incipiente elite fazendeira nas antigas aldeias indígenas, já se sabia que a ideia de promover o desenvolvimento econômico dos índios implicava a sua destruição enquanto povo organizado, transformando-os em meros posseiros em suas próprias terras ou simples artesãos nas novas vilas portuguesas. (Mércio Pereira Gomes, 1991)
O resultado final destas políticas da Coroa foi a transforma de mais de 60 aldeias na Amazônia em vilas, ou a eliminação das aldeias e dos indos. No sul também de forma violenta atitudes portuguesas, deixou na história do Brasil marcado pela crueldade por parte da Coroa com os índios, longos períodos de repressão dos nativos, milhares de mortes, fazem os rios “também rios de sangue”. Só lembrando que foi aqui exposto é referente aos índios, e não aos escravos trazidos da África, aonde os maus tratos foram mais extensos, mais não por isso os índios estavam em situação melhor que dos negros.
Bibliografia:

Gomes, M.P  Os Índios e o Brasil,. Ed. Vozes, 1991

sexta-feira, 18 de abril de 2014

AS QUESTÕES INDÍGENAS NA ATUALIDADE - BREVE RESUMO - A TERRA

Respeitar os povos indígenas significa respeito pela humanidade
“Todo dia era dia de índio. Mas agora eles só têm o dia dezenove de abril”, diz a canção Todo Dia Era Dia de Índio, de Jorge Bem Jor e Tim Maia, ao denunciar a sofreguidão na qual viviam os povos indígenas algumas décadas atrás. A situação dos índios brasileiros melhorou um pouco recentemente, mas os problemas da falta de demarcação de suas terras persistem.
Os conflitos agrários são permanentes com costumeiros assassinatos de índios por capangas de latifundiários que se sentem ameaçados em suas posses ou desejam ampliá-las tomando as Terras Indígenas para si.
O desrespeito aos direitos dos inúmeros povos indígenas é tão grande no país que o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) divulgou em 2013 o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil com dados intrigantes. O quesito Violência Contra o Patrimônio mostra crescimento de 26% das violações das Terras Indígenas. Em 2011 ocorreram 99 e em 2012, 125. Já no caso de Violência por Omissão do Poder Público os índices são alarmantes com avanço de 72%. Em 2012 tivemos 106.801 vítimas, enquanto em 2011, 61.988 vítimas. 
Em Violência Contra a Pessoa é ainda pior. O aumento foi de 237%, sendo registradas 378 violações em 2011 e 1.276 em 2012. Neste item são consideradas as ameaças de morte, homicídios, tentativas de assassinato, lesões corporais e violência sexual.
Somente em 2012 foram assassinados 60 índios, nove a mais do que em 2011, 37 apenas no Mato Grosso do Sul, onde têm ocorrido os maiores conflitos recentes por posse da terra. O relatório mostra também que o conflito por terra pode continuar porque boa parte das Terras Indígenas permanece sem regulamentação.
Por isso, neste sábado (19) não basta comemorar mais um Dia do Índio. A data sugere profundas reflexões sobre a civilização brasileira e sobre que tipo de país se quer legar para as gerações futuras. Os índios precisam de terras. Os irmãos Villas-Boas estabeleceram contato com muitas tribos nas décadas de 1960 e 1970 e criaram a Reserva do Xingu, para onde foram levados diversos povos indígenas. Atualmente, além das reservas são demarcadas as Terras Indígenas para manter os povos em seus habitat naturais.
A importante data instituída em 1943 por Getúlio Vargas para regulamentar os direitos dos povos indígenas no Brasil. O dia 19 de abril foi escolhido porque nesse dia em 1940 aconteceu o 1º Congresso Indigenista Interamericano no México, onde foi criado o Instituto Indigenista Interamericano para defender os direitos dos índios no continente. O Brasil somente aderiu ao instituto após intervenção do Marechal Rondon, quando a data ficou como o Dia do Índio.
Historiadores garantem que existiam milhões de índios por estas bandas quando Pedro Álvares Cabral aqui aportou com sua esquadra e foi iniciada a colonização do Brasil. Em 1500, estima-se uma população indígena entre 5 milhões e 10 milhões de pessoas. Atualmente, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai) essa população beira os 900 mil habitantes, dos quais mais de 500 mil vive no meio rural e o restante na zona urbana. Existem ainda 69 povos não contatados. São 274 diferentes línguas faladas pelos índios brasileiros, 17,5% ainda não falam português.
A Funai informa que existem atualmente 677 Terras Indígenas representando pouco mais de “13% do território nacional, localizadas em todos os biomas, com concentração na Amazônia Legal. Tal concentração é resultado do processo de reconhecimento dessas Terras Indígenas, iniciadas pela Funai, principalmente, durante a década de 1980, no âmbito da política de integração nacional”.
Para a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha os representantes dos ruralistas e das mineradoras querem que os indígenas deixem de ser índios. Para ela, a principal mudança que o texto da Carta Magna acrescentou à questão dos povos indígenas, foi a de respeitá-los como povos.
Todo o problema das Terras Indígenas passa também pela questão da reforma agrária, muito tímida no país com imensas porções de terras agricultáveis e com muita riqueza de fauna, flora e no subsolo das florestas brasileiras. Com isso, muitos interesses gananciosos e capitalistas querem as Terras Indígenas e a banca ruralista no Congresso exorbita contra essas possessões assim como esbravejam contra a reforma agrária para apaziguar o campo brasileiro.
A situação é tamanha que vale lembrar a música de Djavan Cara de Índio, onde o cantor alagoano diz que “nessa terra tudo dá, terra de índio. Nessa terra tudo dá, não para o índio”. E conclui: “Apesar da minha roupa, também sou índio”. Também ouso alterar a bela canção de Jorge Bem Jor e Tim Maia, porque pra a CTB Todo Dia É Dia de Índio. Respeitar os povos indígenas significa respeito pela humanidade e pelo futuro. Integrar esses povos à nação brasileira não pode significar aniquilar suas culturas, seus saberes e suas vidas.

segunda-feira, 31 de março de 2014

MONTEIRO LOBATO - URUPÊ - RESENHA CRÍTICA

Urupês é uma coletânea de contos e crônicas do escritor brasileiro Monteiro Lobato, considerada sua obra-prima e publicada originalmente em 1918. Inaugura na literatura brasileira um regionalismo crítico e mais realista do que o praticado anteriormente, durante o romantismo. A crônica que dá título ao livro traz uma visão depreciativa do caboclo brasileiro, estereótipo contrário à visão romântica dos autores modernistas.

Os contos do livro são:

Os faroleiros
O engraçado arrependido
A colcha de retalhos
A vingança da peroba
Um suplício moderno
Meu conto de Maupassant
"Pollice Verso"
Bucólica
O mata-pau
Bocatorta
O comprador de fazendas
O estigma
Velha Praga
Urupês

Monteiro Lobato escreve com um tom moralizante e didático que também aparece nas obras infantis, além do apreço pela linguagem e gramática. 

Dentre seus personagens, Monteiro Lobato apresenta o homem como produto do meio, como por exemplo o caboclo Jeca Tatu.

Tipos oportunistas, como o malandro vigarista, estão presentes em Urupês, por isso é preciso compreender muito bem o contexto histórico-social brasileiro do período, pois o autor está intimamente relacionado a ele. 

Suas descrições minuciosas de um Brasil primitivo, arborizado e provinciano fazem o leitor ser transportado para o período em que a história é narrada.

O autor, preocupado em reproduzir nos textos a riqueza da fala brasileira da zona rural, com seus coloquialismos e neologismos tipicamente orais, tem no recurso da oralidade a maior ousadia, pois nessa época o uso do português coloquial em obras era visto como algo “inferior” e sem valor literário. Pode-se dizer, então, que a obra antecede as convenções estilísticas propostas pelos modernistas da Semana de 22. 

Em ''Velha Praga'' originalmente um artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo, passsa a ser publicado como parte da obra, uma vez que daí que vem a inspiração para o livro. Nesse texto, o autor denuncia as queimadas praticadas pelos caboclos nômades na Serra da Mantiqueira e os problemas por elas causados. Ao mesmo tempo, mostra o descaso em que essas pessoas vivem.

Jeca Tatu é o representante máximo do caboclo que vive na preguiça, alimentando-se e daquilo que a natureza lhe oferece, sem nenhum tipo de educação e alheio a tudo o que acontece pelo mundo. Sertanejo preguiçoso, cachaceiro e analfabeto, representa a ignorância do homem do campo...

É a denúncia do descaso do governo com relação às pessoas da zona rural uma vez que, segundo Monteiro Lobato, “Jeca Tatu não é assim, ele está assim”. 

Lobato faz críticas às práticas devastadoras da natureza (queimada, derrubada de árvores, desmatamento) e culpa o homem rural por não ter consciência da preservação da natureza.

Apresenta, nesta obra, um estilo cheio de afeições amorosas e pela presença da morte.

Vejamos um exemplo no conto ''Bucólica'' – ele era um amante da natureza, gostava das flores... Era sensível. Ficou sabendo que a Anica tinha morrido, perguntava do quê, mas ninguém sabia responder. Tinha morrido. Só isso podiam e sabiam dizer. Finalmente encontrou Inácia, uma agregada da casa dos Suãs – família da menina – essa saberia do que a menina tinha morrido. A negra contou. A menina tinha morrido de sede! Era aleijada, estava doente e então Inácia foi ao bairro do Libório, mas começou a chover e ela ficou presa por lá. À noite, Anica pediu água para a mãe, mas ela não buscou e a pobre, já sofrendo na cama, ficou a gemer com sede. Encontraram o corpo dela na cozinha, aos pés do pote de água. Não conseguiu nem alcançar o pote, a caneca estava como antes, toda a cozinha estava como antes, exceto pelo corpo da aleijada que se arrastou até lá para morrer de sede tão perto da água.


O termo urupês tem sua origem no termo tupi-guarani uru-pê, forma abreviada de urupeba, fungo “orelha-de-pau” que cresce na madeira velha ou apodrecida.

domingo, 30 de março de 2014

CRÔNICA DE UMA DITADURA ANUNCIADA - 1964 / 2014


Não. O ano não é 2014. Estamos falando de 50 anos atrás, quando uma sucessão de crises (econômicas, políticas, sociais) acompanhada de uma série de desmandos deu origem ao Golpe Militar do dia 31 de março de 1964 (ainda que alguns digam que a data correta do levante, pelo desdobramento dos acontecimentos, seria o dia 1º de abril, mas que foi registrada de forma adiantada pelos militares para evitar tão infeliz coincidência – que talvez se mostrasse um mau presságio para tão infeliz acontecimento).
Ao contrário do que muitos costumam pensar, os conflitos que direcionaram os militares para o Golpe de 1964 não tiveram início em 1961 com a até hoje inexplicada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República.  
Para podermos nos localizar no tempo e entender a dinâmica que deu origem ao golpe, devemos retornar a 1955, quando Juscelino Kubitschek foi eleito para suceder o mandato que não fora concluído por Getúlio Vargas. Juscelino teve dificuldade em lançar sua candidatura, pois os militares vetavam-na por acreditar que os comunistas o apoiavam.  Devemos nos lembrar de que estamos no período de Guerra Fria – (EUA vs URSS, capitalismo vs comunismo) e que o medo de uma revolução comunista habitava os países latino-americanos.
Há muito custo Juscelino consegue candidatar-se. Nesta época, votava-se em separado para presidente e vice-presidente e Juscelino (do Partido Social Democrático - PSD) tem como vice João Goulart (do Partido Trabalhista Brasileiro - PTB), o Jango, que obteve mais votos do que o próprio presidente eleito. Para assegurar a posse dos dois, o então Ministro da Guerra, Gal. Henrique Teixeira Lott, depôs o presidente interino, Carlos Luz (da União Democrática Nacional - UDN) que, suspeitava-se, não daria posse ao novo presidente eleito. Com isso, o Brasil é presidido até 31 de janeiro de 1956, sob estado de sítio, por Nereu Ramos, presidente do Senado Federal, do mesmo partido de JK. 

Foi sob esta pressão política que JK cumpriu todo o seu mandato, porém sem maiores sobressaltos, conseguindo implementar algumas realizações como a construção da nova capital federal Brasília, estabelecer um processo de rápida industrialização com foco na indústria automobilística, e propiciar um forte crescimento econômico. Deixou, porém, como herança um aumento na dívida pública interna e na dívida externa, com reflexos em um aumento da inflação. 

Juscelino é sucedido, em 1961, por um candidato apoiado pela oposição, Jânio Quadros, que apresentava propostas de combate à corrupção, de modernização na forma da administração pública e no combate a inflação. Mais uma vez o vice-presidente é João Goulart, de chapa de oposição a Jânio. Anticomunista, mas adepto da provocação e da criação de fatos que o mantivessem na mídia, Jânio Quadros condecorou com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul o guerrilheiro Ernesto Che Guevara, um dos principais líderes da revolução que, em 1959, instituiu o regime comunista em Cuba, sob as mãos de Fidel Castro. Grupos militares sentiram-se provocados e a oposição, especialmente Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, aproveitou-se deste fato para tensionar o momento político.

Propondo um plano de política externa independente, nem ligada aos EUA nem tampouco a URSS, Jânio Quadros acabou por desagradar aos interesses americanos e a mídia nacional, capitaneada por Roberto Marinho (das Organizações Globo) e Júlio de Mesquita Filho (do jornal O Estado de São Paulo), passa a acusar o seu governo de aproximar-se do comunismo.
Sem suporte no Congresso Nacional, e pressionado pelos ministros militares, Jânio renuncia em 25 de agosto de 1961, informando que toma tal atitude pois “Forças terríveis levantam-se contra mim”. 
Seu vice, João Goulart, encontrava-se em missão diplomática na República Popular da China, justamente um país comunista. Por seus vínculos com políticos de esquerda, em especial do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e do Partido Comunista Brasileiro (PSB), alguns setores militares cogitam vetar sua posse como presidente da República a ponto dos três ministros militares divulgarem um manifesto contra a sua posse e que descrevia Jango como um agitador com simpatia pela União Soviética e pela China e que, se assumisse o poder, levaria o país a um período “de agitações sobre agitações, de tumultos e mesmo choques sangrentos nas cidades e nos campos, de subversão armada”.
Ao retornar ao Brasil, Jango teve que aguardar no Uruguai até que o Congresso Nacional e os militares chegassem a um consenso sobre a sua posse. Neste meio tempo, Leonel Brizola, seu cunhado e governador do Rio Grande do Sul, organizou a Campanha da Legalidade para defender a posse de João Goulart.
Em setembro de 1961, por fim,  o Congresso Nacional aprovou o sistema parlamentarista, o que permitiria manter João Goulart na presidência, porém com perda de parte de seu poder que passaria para as mãos de um primeiro-ministro. Assim, em 8 de setembro Jango toma posse como presidente enquanto Tancredo Neves chefia o governo na posição de primeiro-ministro. 
Em 1962 o PTB de Jango conseguiu dobrar sua representação na Câmara dos Deputados passando a controlar a segunda maior bancada da casa. Jango também consegue antecipar o plebiscito para decidir entre a permanência do parlamentarismo e o retorno ao presidencialismo. Com uma forte campanha do governo, o presidencialismo é escolhido por 80% dos votantes e seu retorno se dá em janeiro de 1963.
Durante o ano de 1963, além do retorno do presidencialismo, tem-se um grande número de acontecimentos que acabam por abalar a estabilidade política do governo. O Plano Trienal, conjunto de reformas institucionais para atacar os problemas estruturais do país, não mostrou resultados, em grande parte por não ter contado com o apoio dos sindicatos nem dos empresários, e a economia encontrava-se em crise. Acrescente-se ainda o poder da direita que continuou com maioria no Congresso, maioria esta advinda do apoio clandestino fornecido pelos EUA que forneceu milhões de dólares para as campanhas de candidatos que faziam oposição a Jango.
Para piorar, tem-se ainda a revolta dos sargentos da Aeronáutica e da Marinha contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de não permitir a eleição de sargentos para o legislativo. A posição de neutralidade do presidente acabou desagradando a grande parte das Forças Armadas que viu nessa atitude um desrespeito à hierarquia militar. Jango hesitava por necessitar do apoio da esquerda para enfrentar os adversários da direita, como Carlos Lacerda, que clamava aos militares que tomasse uma atitude para tirar Jango do poder.
Com todas estas situações a lhe minar as forças, Jango via-se constantemente pressionado pela direita e pela esquerda, ambas demonstrando um profundo desprezo pela democracia que então se mostrava cambaleante. Assim, aceitando uma sugestão dos ministros militares e alegando que a radicalização política ameaçava a segurança do país, Jango propôs então ao Congresso a decretação de estado de sítio. O plano de Jango era utilizar o estado de sítio para intervir em estados como a Guanabara de Carlos Lacerda. O pedido não encontra apoio da maioria dos parlamentares, pois até seus aliados viram nesse decreto a possibilidade de serem atingidos, sendo então retirado pelo presidente três dias depois. O vai e vem da proposta do estado de sítio serviu para fragilizar seu governo ainda mais.
Com a crise econômica batendo a sua porta e com a oposição de militares, o presidente procurou, enfim, mostrar estava no comando da situação e buscou se fortalecer, participando de manifestações e comícios que defendiam suas propostas. 
Fundamental para entender os rumos dos acontecimentos foi o comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, que reuniu cerca de 150 mil pessoas, incluindo sindicatos, associações de servidores públicos e estudantes.  Conhecido como Comício da Central do Brasil, ou Comício das Reformas, pois ali João Goulart deu uma guinada forte em direção à realização das reformas de base, dentre as quais se encontrava, por exemplo, a proposta de reforma agrária com a desapropriação de terras de particulares. Foi um comício em que, junto com as bandeiras vermelhas do PCB viam-se também faixas pedindo a ampliação do tempo de governo de Jango, o que deu a entender que pairava uma ameaça golpista no ar de parte dos partidários do presidente.
Entre os quinze discursos que precederam Jango, dentre os quais se destacavam a do então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), José Serra, e do governador de Pernambuco, Miguel Arraes, ouviam-se pregações contra a política conciliadora do presidente com setores conservadores, em especial vindas de seu cunhado, Leonel Brizola, que colocou o presidente contra a parede: “O nosso presidente que se decida a caminhar conosco e terá o povo ao seu lado; quem tem o povo ao seu lado nada tem a temer”. 
O presidente, então, em seu discurso de 54 minutos, anunciou uma série de medidas: defendeu a reforma da Constituição para ampliar o direito de voto a analfabetos e militares de baixa patente, anunciou que tinha assinado um decreto transferindo para o governo o controle de cinco refinarias de petróleo privadas e outro que desapropriava as terras às margens de ferrovias e rodovias federais com indenização paga com títulos da dívida pública, o que ia contra a Constituição, que previa desapropriações mediante indenização prévia em dinheiro.
Jango, em sua mensagem anual ao Congresso, informou que apresentaria uma proposta para apressar as desapropriações de terras, além de projetos de reforma bancária, administrativa, universitária e eleitoral, esta última objetivando dar a analfabetos, sargentos e praças o direito de votar e disputar eleições. Jango buscava ainda obter poderes legislativos para o Executivo para facilitar a aprovação das reformas e a convocação de um plebiscito sobre as reformas de base. Tais ações só fortaleceram em seus opositores a certeza de que Jango caminha em direção a um golpe e em seus apoiadores a ânsia em provocar situações que os levariam a tomar de vez o poder de tal forma que não contassem com a oposição das forças conservadoras do país. 
Em resposta ao que foi considerada uma provocação do governo à ordem democrática e uma guinada fortíssima em direção à esquerda, em 19 de março, em São Paulo, foi organizada a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, cujo objetivo era mobilizar a opinião pública contra o governo de Jango e a “ameaça comunista”. Aproximadamente 300 mil pessoas fizeram uma passeata no centro de São Paulo. 
A Marcha contou com o apoio de líderes religiosos (alguns do quais, futuramente, viriam a se posicionar de forma brava e corajosa contra a ditadura militar), bem como com o apoio de lideranças políticas como o governador de São Paulo, Adhemar de Barros representado pela esposa, e o governador do estado de Guanabara, Carlos Lacerda (sim, o mesmo que foi estopim da crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas, que encampou o tensionamento político contra o governo de Jânio Quadros, e que fora chamado de energúmeno por Leonel Brizola em seu discurso na Central do Brasil seis dias antes) além de Auro de Moura Andrade, presidente do Senado e do Congresso e que, mais a frente, teria um papel importante na efetivação do golpe.
Em 20 de março de 1964, o general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, envia uma circular reservada aos oficiais do Exército, advertindo contra os perigos do comunismo e classificando como ilegal a atuação do Central Geral dos Trabalhadores - CGT e revolucionária, para não dizer golpista, a ideia de uma Constituinte.
Uma semana após, precisamente no dia 28 de março, os marinheiros e fuzileiros navais comemoravam, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, os dois anos da sua associação (que era considerada ilegal) quando o ministro da Marinha, Silvio Mota, mandou prender seus organizadores. Os fuzileiros enviados aderiram aos insubordinados e Jango acabou por demitir Silvio Mota logo depois, assumindo mais uma vez uma postura que provocou a indignação dos oficiais da Marinha.
No dia 30 de março, Jango compareceu a uma festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar, na sede do Automóvel Clube do Brasil, onde se sentou ao lado do líder da rebelião dos marinheiros e fez um discurso incendiário em que atribuiu a responsabilidade por um possível derramamento de sangue aos seus inimigos políticos que estavam em uma poderosa campanha contra o governo: “A crise que se manifesta no país foi provocada pela minoria de privilegiados que vive de olhos voltados para o passado e teme enfrentar o luminoso futuro que se abrirá à democracia pela integração de milhões de patrícios nossos na vida econômica, social e política da Nação, libertando-os da penúria e da ignorância”.
No dia 31 de março o general Olympio Mourão Filho dá início ao golpe durante a madrugada ao encaminhar suas tropas (antes do esperado pelos próprios conspiradores) de Juiz de Fora (MG) até o Palácio das Laranjeiras, no Rio, onde estava o presidente. O comandante do 2º Exército, Amaury Kruel, amigo pessoal de Jango, pede, por telefone, ao presidente que dissolva a CGT e demita ministros de esquerda. Como o presidente recusa ele alia-se aos golpistas.
No dia 1º de abril de 1964, o Forte de Copacabana é tomado pelos militares golpistas que defendem o Palácio da Guanabara, residência do governador Carlos Lacerda. No Recife, o governador Miguel Arraes é preso e, no Rio, a sede da UNE é incendiada. Jango retorna a Brasília de onde é aconselhado a ir para Porto Alegre, onde é recebido por Brizola. Brizola sugeriu um novo movimento de resistência, mas João Goulart não aceitou, para evitar o derramamento de sangue que ele sabia que adviria de uma guerra civil.O Gal. Arthur da Costa e Silva se autonomeou comandante-em-chefe do Exército e assumiu a frente do Comando Supremo da Revolução, que também incluía um representante da Marinha e um da Aeronáutica.
No dia 2 de abril, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, convocou durante a madrugada uma sessão extraordinária no Congresso e declarou a vacância de João Goulart no cargo de presidente, ignorando a informação passada por Darcy Ribeiro, seu Chefe de Gabinete, de que Jango estava no Brasil. Foi entregue o cargo de chefe da nação novamente ao presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli (ele havia assumido anteriormente a presidência após a renúncia de Jânio Quadros, enquanto Congresso e militares discutiam a posso de Jango). O general Costa e Silva enviou um comunicado aos militares se autonomeando comandante-em-Chefe do Exército.
Jango escondeu-se em São Borja, no Rio Grande do Sul, partindo no dia 4 para o exílio no Uruguai mudando-se mais tarde para a Argentina, onde faleceu em 6 de dezembro de 1976, de ataque cardíaco. A ditadura negou seu enterro com honras de chefe de estado, como já havia feito com JK, que morrera alguns meses antes, em 22 de agosto.
Em 9 de abril Costa e Silva edita o Ato Institucional nº 1 (AI-1). Ele permite a cassação de mandatos e a suspensão de direitos políticos. Na ocasião foram cassados os mandatos de 40 membros do Congresso Nacional, que tiveram seus direitos políticos cassados por dez anos, junto com outras 87 pessoas, dentre as quais o próprio Jango. Também foram transferidos 146 militares para a reserva. Também foram marcadas eleições indiretas em dois dias para Presidência e vice-presidência da República.
Em um Congresso Nacional já esvaziado devido a cassações e prisões, Costa e Silva anuncia, em 15 de abril, o Mal. Humberto de Alencar Castelo Branco como o novo presidente, com mandato definido até dezembro de 1966. Castello Branco havia se juntado ao golpe algumas semanas antes, e por seu grande prestígio despontou como favorito para liderar a formação de um novo governo, especialmente pela garantiria que oferecia de uma rápida devolução do poder aos civis. Políticos golpistas, como o Carlos Lacerda e o governador mineiro e banqueiro Magalhães Pinto, e oposicionistas ao golpe, como Juscelino Kubitschek, votaram em Castello Branco, pois viam nele a possibilidade de retorno às eleições democráticas para presidente em 1965, da qual todos eles tinham grande interesse em participar. 
Entretanto, havia uma grande parte da caserna que pedia que fosse adotada uma linha mais dura no poder.   Com a derrota dos candidatos do governo nas eleições estaduais de 1965 Castello Branco viu-se obrigado a editar o Ato Institucional nº 2 (AI-2) que extinguiu os partidos políticos e cancelou as eleições diretas para presidente. A Revolução, como os militares até hoje tentam vender a imagem do Golpe de 64, ficava cada dia mais parecida com a feia ditadura que veio a se tornar.
Mas vamos dar mais uma olhada nos rumos dos acontecimentos:
Não. O ano não é mais 1964.
Agora estamos em 2014 e vemos, 50 anos depois, a história se repetindo em muitos aspectos. Entretanto, não é porque as peças estão dispostas da mesma forma que se deve utilizar a mesma estratégia de jogo. Até porque, como já sabido, da forma como foi anteriormente jogado não dá para dizer que houve vencedores. Se não dá para mudar as peças, que se mudem as estratégias. E para isso a democracia tão duramente reconquistada nos dá o direito de mudarmos os jogadores. 
Buscando saber mais?
Livros:
GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada.  2ª Ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. Mais informações disponíveis em  http://arquivosdaditadura.com.br/
GASPARI, Elio. A Ditadura Escancarada. 2ª Ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. Mais informações disponíveis em  http://arquivosdaditadura.com.br/
GASPARI, Elio. A Ditadura Derrotada. 2ª Ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. Mais informações disponíveis em  http://arquivosdaditadura.com.br/
GASPARI, Elio. A Ditadura Encurralada. 2ª Ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. Mais informações disponíveis em  http://arquivosdaditadura.com.br/
CONY, Carlos Heitor. O Ato e o Fato: o som e a fúria das crônicas contra o Golpe de  1964. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil nunca mais. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1985. Mais informações disponíveis em http://bnmdigital.mpf.mp.br/
Filmes:
Jango. Direção de Silvio Tendler, 1984.
O que é isso, companheiro? Direção de Bruno Barreto, 1997.
Pra frente, Brasil. Direção de Roberto Farias, 1982.
Lamarca. Direção de Sérgio Rezende, 1994.
Marighella. Direção de Isa Grinspum Ferraz, 201


sábado, 15 de março de 2014

PRICÍPIOS ELEMENTARES DE GEOPOLÍTICA E A SITUAÇÃO UCRANIANA



A regionalização é a divisão do espaço geográfico, com critérios previamente estabelecidos, em áreas menores que passam a ser chamadas de regiões. Cada região se diferencia das outras por apresentar particularidades próprias. Qualquer espaço pode ser regionalizado, isto é re-divido, um país, uma outra região, um estado, até mesmo as cidades são divididas em regiões [bairros]. Pode ser região administrativa, natural etc. No plano global o mundo também é dividido em regiões, cada continente se constitui numa região.
 A DIT - divisão internacional [social] do trabalho tem origem há aproximadamente 5.500 anos, com o aldeamento; essa divisão social foi se aperfeiçoando até os dias atuais, quando ditam às mais diferentes regiões do mundo o que elas devem produzir e/ou consumir. 
Essa desigualdade combinada se reproduz por meios desiguais como a transferência de processos de trabalho mais banais para os países subdesenvolvidos e retendo para os desenvolvidos os processos de trabalho mais sofisticados, logo, o salário é menor nos países periféricos.
Antes da Segunda Guerra Mundial havia uma ordem mundial multipolar, representada pelo Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos, Japão e Rússia. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e, especialmente, a Segunda Guerra Mundial foram momentos de desequilíbrio nessa ordem multipolar. As potências europeias e o Japão saíram arrasadas da disputa. Então EUA e União Soviética passaram a dividir o mundo entre si; o mundo ingressou, então, numa ordem bipolar, que durou até 1991.
Hoje a dúvida é: qual a nova ordem mundial? Seria monopolar, com os EUA ‘dominando’ o mundo, ou multipolar, destacando-se, principalmente, o Japão, EUA, Europa, China? A economia mundial indica a multipolaridade com o predomínio dos EUA e forte presença dos Bric, principalmente a China, que tem uma economia saudável.  Atualmente os EUA vêm passando por uma séria crise; porém o seu papel de país dominante (e representante máximo do capitalismo) é ressaltado pelo fato de que vários setores e países do mundo sofrem os efeitos dessa crise.


A SITUAÇÃO UCRANIANA
A situação de instabilidade política da Ucrânia têm gerado diversas análises dos mais variados comentaristas e especialistas em geral. Segundo a análise mais comum, a Ucrânia estaria querendo se tornar mais alinhada ao Ocidente e o “ditador” russo Putin estaria travando o avanço qualitativo desse país.  Estaríamos presenciando, segundo algumas análises, um confronto paradigmático ao dos tempos da guerra fria. Não obstante, embora supostamente similar, a crise de hoje tem como causa e consequência o avanço da política externa estadunidense de se criar “zonas de instabilidade” em nações controladas por outras hegemonias.
É claro que temos que partir para uma reflexão mais acurada, de uma análise um pouco distante e crítica do bombardeio midiático dos meios de comunicação ocidental, mais especificamente a mídia brasileira, pautada no modelo norte americano e britânico.
Ao contrário do que se dissemina, e do que escreveu Francis Fukuyama em “O Fim da História e o Último Homem”, a democracia não é o tipo ideal de regime, para todos os povos. Algumas culturas não absorvem esse modelo de poder político em suas vidas sociais.
O jogo estratégico de declarações entre Rússia e EUA, pontualmente a partir do que este tem feito para tentar vender a ideia de que defende um governo democrático na Ucrânia, corresponde a uma suposta idealização de que o regime democrático é universal. Nos subterrâneos, o verdadeiro interesse sempre foi o de instalar um governo pró-ocidente, alinhado aos planos estratégicos estadunidenses. Região por onde passam muitos dutos de gases e grande produtora nuclear, a Ucrânia é crucial para a Rússia não deixar abalar ainda mais seus poderes, que desde bem antes da queda do muro de Berlim, vem se esvaindo.
O planeta que outrora fora partilhado entre Ocidente e Oriente, EUA e Rússia, hoje se apresenta com uma configuração muito modificada, mas algumas premissas daquelas que alimentaram toda uma política externa agressiva entre o mundo capitalista e o mundo comunista ainda estão em voga, e um deles é o de controle do que Halford Mackinder denominou de “O Coração do Mundo”, ou seja, aquela faixa que compreende a Eurásia, rica em minérios.
É desde a política de contenção dos EUA, através das ideias de Nicholas Spykman, partindo de uma reinterpretação das ideias de Mackinder, que a política externa estadunidense não tem medido esforços para criar e alimentar instabilidades em diversos regimes situados em regiões-chaves, para a contenção do avanço de outras nações hegemônicas. E o principal instrumento é travar ou dirigir o fluxo de fontes de energia dessas nações, pois se entende que é minando o desenvolvimento da economia desses países que se consegue derrubar os mais diferentes regimes políticos neles instaurados.
O que se pretende é deixar claro que na blasfêmia de levar a paz e o governo democrático a outros povos, o discurso norte americano tem legitimado suas ações estratégicas de política externa com sucesso. O Caso do Iraque e Afeganistão são apenas exemplos com maior recall aos quais podemos lançar análises para entender esse jogo de poder entre as nações hegemônicas, que avançam e recuam em suas posições de domínio e influência sobre o mundo.
O anexo da Criméia já era dado como inevitável pelos especialistas em geopolítica, e o entendimento dessas sanções que o ocidente, através de seu grande líder, os EUA, estão tentando nos vender são por parte inócuas. A experiência tem nos mostrado que o poder atômico dessas hegemonias é o instrumento último que determina a posição no tabuleiro de xadrez dessas nações, e não o estrangulamento de parte do poder de comércio desses países.